Mãos abençoadas que embalam o pago
Buenas, vivente! Lá pelos campos de Passo Novo, onde o vento minuano cochicha segredos e o sol pinta de dourado as coxilhas, existe uma figura mais especial que churrasco em domingo de família. A prenda Alice, nascida em 23 de agosto de 1927, é dessas criaturas raras que o tempo respeita e a vida reverencia. No último 23 de agosto, quando completou seus 98 janeiros, a comunidade inteira se reuniu no CTG Nico Dorneles pra celebrar essa mulher que tem mais história pra contar que gaudério velho em roda de mate. Benzedeira e parteira respeitada, Dona Alice tem mãos que parecem guardar o segredo das curas antigas, aquelas que nossos antepassados conheciam quando a medicina ainda era escassa nos rincões da fronteira.
Uma matriarca de bombacha e coração largo
Mas bah, tchê! A vida da Dona Alice não foi mais mansa que doma de bagual. Já era mãe da Heloísa quando casou com o saudoso José Carreteiro (que já se bandeou desta vida). Juntos, aumentaram a prole com mais nove rebentos: Luís Carlos (já falecido), Elisabete, Nilza, Pedro, Júlio, Maria (também já partida), Sandra (que descansa com os anjos), Paulo (que também se foi) e Cimara. E como se não bastasse dar conta dessa gurizada toda, ainda acolheu dois irmãos pra criar, mostrando que seu coração é mais largo que campo em dia de cevar o gado. Trabalhou em fazendas e pensões, mas foi com seus dons de parteira e benzedeira que conquistou o respeito de viventes de toda a região. A fila de gente buscando alívio em suas rezas era mais comprida que espera em baile de CTG. Seus rituais, feitos com a simplicidade de um copo d’água, galhos, tesouras e brasas, variavam conforme o mal que afligia o cristão que batia à sua porta.
A prole que se espalhou como semente ao vento
O legado dessa guerreira se espalhou mais ligeiro que notícia boa no interior. De seu sangue vieram 29 netos, 41 bisnetos e 7 trinetos – uma família maior que comitiva em dia de cavalgada! Mesmo espalhados por diferentes rincões deste Brasil varonil, todos carregam um pouco da fibra e da sabedoria da vó Alice. E sempre que o coração aperta de saudade, voltam a Passo Novo como gado que retorna ao seu querido campo. No dia da festa, a emoção tomou conta do ambiente, mais forte que chimarrão sem açúcar. Os olhos marejados dos familiares e amigos contavam histórias que as palavras não alcançam. Como diz o ditado campeiro: ‘A gratidão é o perfume que a flor deixa na mão de quem a colheu’, e naquele dia, o ar estava perfumado de reconhecimento.
Dona Alice representa o que há de mais genuíno na alma alegretense: a resiliência diante dos percalços, a generosidade sem limites e a sabedoria que só os anos podem trazer. Suas mãos, que trouxeram tantas vidas ao mundo e afastaram males com suas rezas, são símbolo de um tempo em que a medicina popular era o único amparo para muitas famílias da fronteira oeste. Em seus 98 anos, ela carrega a história viva de Passo Novo e de tantas gerações que foram tocadas por seu dom. Que o Divino continue iluminando o caminho dessa guerreira que é patrimônio vivo de nossa querência.
Compartilha esse causo com aquele parente mais velho da família que conhece o valor de uma boa benzedura! E se tu conhece uma benzedeira na tua comunidade, dá valor enquanto ela está entre nós, tchê!









