Uma manhã mais molhada que cusco em banhadão
Buenas, vivente! Aquela manhã de 20 de setembro amanheceu mais molhada que cusco caído em banhadão. O céu de Alegrete parecia uma cuia virada, derramando água sem dó nem piedade sobre o desfile dos piquetes. Mas foi justamente nesse cenário de respingar goteira que uma cena se transformou em verdadeiro monumento à fibra gaúcha. Os olhos da gurizada e dos mais antigos testemunharam um quadro que vale mais que retrato em moldura: uma prenda que, quando o destino tentou apear, mostrou que gaúcha de verdade não se entrega por qualquer tropeço do baio.
O lombo do baio falhou, mas não a coragem da prenda
Quando o locutor chamou o piquete Nico Dorneles para desfilar, Carol Pires tomou rumo da praça mais orgulhosa que galo em terreiro novo. Mas eis que, num repente, a cabeçada do cavalo rebentou – e não era a primeira vez naquele dia, mas a terceira tentativa frustrada! O tombo não foi feio porque ao lado dela, mais ligeiro que gato em telhado quente, estava o marido, que num reflexo de campeiro experiente, estendeu o braço e segurou o instante. Qualquer um pensaria: ‘Agora sim, a prenda vai se bandear pra casa’. Mas quem pensou assim não conhece o que é sangue gaúcho correndo nas veias. A Carol não arriou as armas. Com a determinação mais firme que estaca de galpão antigo, ela segurou a rédea e, passo a passo, foi puxando o baio pela mão, como quem diz que tradição não se carrega só no lombo do cavalo, mas principalmente no peito.
Quando o barro vira palco de honra
“Foram três vezes que rebentou e eu não desisti. Já que não deu para passar a cavalo, desci e vim puxando meu cavalo. Somos de uma família tradicionalista e amo muito tudo isso aqui. Não poderia deixar de quebrar mais um 20”, contou a prenda, com a respiração ainda marcada pela travessia e os olhos brilhando mais que brasa em noite fria. Debaixo daquela chuva que transformava o chão em desafio barrento, Carol seguiu seu caminho, mostrando pro povo alegretense que, às vezes, é preciso descer do cavalo pra provar que se é gaúcho de verdade. Como diz o velho ditado campeiro: “Não é o pêlo do cavalo que faz o campeiro, mas a vontade de seguir campeando”.
Neste 20 de setembro encharcado, Carol mostrou pra Alegrete inteira que tradição também se faz de teimosia bem posta. Que a coragem verdadeira às vezes não precisa de sela, mas de um par de botas dispostas a se sujar de barro. Enquanto muitos se escondiam da chuva, ela transformou um contratempo em lição de honra, lembrando a todos nós, alegretenses, que a verdadeira tradição não se mede pelo desfile perfeito, mas pela garra de não se entregar quando o destino tenta nos apear. Porque no fundo, quebrar um 20 de setembro não é apenas cruzar a praça – é mostrar que, mesmo quando não dá pra cavalgar, o caminho se faz a pé, puxando junto o que nos trouxe até ali.
Compartilha esse causo com aquele amigo tradicionalista que chora ouvindo ‘Querência Amada’ e sabe que ser gaúcho vai muito além da pilcha bonita!









